x
dargye
#
ninharias

por favor, silêncio. 

está algo a acontecer, algo que vocês não conseguem ver com os vossos olhos pequenos,

não conseguem sentir na diferença do vento.

 

agrupem-se, associem-se, confidenciem-se, fidelizem-se...

cócegas, apalpões, insinuações e os subsequentes risinhos imbecis,

e ostentação, por favor, por favor olhem para mim, oiçam o que eu tenho para dizer,

e caras estudadas, muitas, sempre demasiadas:

conhecedora ao balcão do talho, habituada àquelas transacções, muito adulta, muito responsável,

inteligência penetrante face ao documentário, acena afirmativamente com a cabeça, mão no queixo,

experiente e muito vivido, ouve qualquer desabafo como uma reprise, sim, já ouvi isso milhões de vezes, para ti é novidade mas para mim é muito batido,

quando olhado por um outro, saca como de uma pistola do olhar sexy que treinou ao espelho da casa de banho de azulejos azuis,

não sente realmente o olhar que encena,

não sente arrepios na pele, borboletas na barriga,

mas faz aquele olhar de filme americano para fazer crer que tem algum interesse,

ridículo,

crianças num jogo de adultos,

patos domésticos.

 

e mesquinharias

"ana, baixa a música, estamos a tentar ver o documentário",

para depois o esquecerem em risos e comentários banais sobre o cachorro 

e quando o documentário tem legendas e não acredito que decifrem aquele cockney,

e quando ontem me arruinaram o documentário em português com gargalhadas históricas, ruído de pratos e talheres, recomendações e incentivos.

são os vossos rituais de esquecimento e respeito-os.

mas deixem a magia para os gatos e as mulheres que sussurram à noite e à lua.

 

na segunda-feira tinha pensado morrer mais um bocadinho,

mas acordei e trouxeram-me para aqui, para onde não tenho como morrer nem como ver o homem,

e estou-vos agradecida, tão agradecida,

por favor, calem-se.

saiam de ao pé de mim e do écran onde espelho os meus pensamentos,

párem de espreitar,

sejam invisíveis só um bocadinho.

 

as ninharias da vida não têm hoje lugar.

 

pintei o cabelo de vermelho novamente. (para me erguer das cinzas e comer os homens como ar.)

 

os minutos são um silêncio crescente em força e sede,

como quando os gatos se preparam par dar o salto, e fitam a presa, imóveis,

e a minha vida espera-me, ansiosa,

como posso continuar aqui?

 

 

 

No dicas - dá uma dica
 
#
segredos

"I won't stop following you..."

 

subimos os degraus o mais silenciosamente possível até ao sexto andar, secreto no meio de lisboa, só nós os dois.

o teu telemóvel não parava de tocar. pedia-te, atende, não tem culpa. dizias, não quero, já não consigo continuar esta farsa, por favor fica comigo. disse-te, agora não, aproveita o amor que te é dado, só mais um tempo, até estar tudo pronto. calaste-te. alguém subia as escadas. olhaste para mim, acendeste o isqueiro e queimaste na parede, num só símbolo: AR

solve et coagula

rx queen

with you

toy

e todas as músicas que me fizeste e me dedicaste embalam o meu sono neste deserto.

de vez em quando, a tua voz: está quase.

 

descíamos a rua, após o confronto inevitável.

cada um comprometido com as suas respectivas metadonas,

e um de nós parou numa rua cortada ao trânsito.

"vês este dois pilares? encerram um portal. desse lado, existes... deste..."

sem tempo de acabar a frase.

o mundo fechou-se num abraço interminável, sôfrego, sequioso..

sempre meu.

sempre tua.

primeiro sonho, sempre em frente.

No dicas - dá uma dica
 
#
the final rip-off

and then, a real first...

(versão testamento)

 

tem chegado a mim através de inúmeras vozes, escritas, e citações e conselhos e sorrisos, a verdade universal de que somos nós que mantemos os padrões mentais que criam os acontecimentos que se repetem nas nossas vidas. padrões de doença, carência, dependência, infelicidade. como não poder deixar de consumir drogas, ou precisar de um homem para esquecer o antigo, porque não se suporta a própria companhia.

 

na sua breve passagem pela minha vida, o homem dos quadrados trouxe-me essa verdade sob três faces ( listadas por ordem de importância):

- a primeira, o livro da irmã dele, que me emprestou

- a segunda, o livro que eu quis assim que a irmã dele mo mostrou, e ele me ofereceu para "expandir o meu espírito",

- a terceira, aquilo que me disse sobre ter pensado que seria injusto que eu esperasse por ele, quando já tinha tido de esperar por que o gajo cumprisse o seu voto (o que vale é que os sofrimentos passados raramente mantêm o peso que lhes atribuímos quando se passaram - à distância de um ano, que, vendo bem, não é nada, considerando que o mundo existe há milhões de anos, só consigo achar absurdo que tenha sofrido tanto e chorado as últimas lágrimas que me recordo de chorar por uma formalidade numa relação que se desfez como um castelo de areia à passagem de uma onda... aliás, como todas). disse-me que tinha visto um padrão a repetir-se, e não queria submeter-me a isso.

 

ora vamos por partes:

em todas as relações que eu tive até hoje, só houve uma constante - submissão. nem sempre factual, muitas vezes mesmo acusada de imaginária pelos protagonistas, mas que interessa a quem sofre se o seu sofrimento é real ou imaginário? não serão todos os sofrimentos, em última análise, imaginários?

 

submissão à indiferença, à traição, às diferenças, ao orgulho, à mentira, ao ciúme, às afirmações do ego, e a todas as incontáveis mesquinhices e lamúrias e manipulações e penas e angústias de que os homens são (sempre surpreendentemente) capazes, quando estão a ver que a bem não chegam lá.

 

são muitos os abismos no abismo das relações amorosas, na sua maioria intransponíveis, e, vendo bem, perfeitamente desnecessários. pelo menos até nova informação.

 

o mais acarinhado de todos os dons masculinos que até hoje me foram apresentados é, sem dúvida, a espantosa, quase alquímica capacidade que os homens têm de pegar numa mulher que consideram bonita, inteligente, independente, alegre, optimista, selvagem, e, aos poucos, sem que ela se dê conta, refreá-la, manipulá-la, entristecê-la, domesticá-la, amesquinhá-la, diminuí-la e transformá-la, pouco a pouco, lamúria a lamúria, birrinha a birrinha, numa esposa, um animal doméstico, uma coisinha murcha, esmorecida, sem brilho, sem prazer, sem espontaneidade, sem... vida! e, interiormente, esfregam as mãos quando ela deixa de sorrir pela rua, de falar com toda a gente, de usar mini-saia, quando está presa, sufocada, quando deixou de ser aquilo que os apaixonou e que poderia apaixonar outros... e então há duas hipóteses: ou ela escapa à clausura que permitiu e criou para si mesma, ou ele procura outra, com todos os atributos que ela deixou de ter para percorrer o caminho que os separava.

 

como este artifício da culpabilização há toda uma miríade de outros, destinados, sempre, sempre, a manter o homem na posição de poder que ele julga que ela tem à força e se abate sobre a fraqueza dele. a indiferença, a reprovação, o insulto, a desconfiança, o paternalismo, o paleio de vendedor, a mentira, a bajulação cínica, truques desonestos que matam a dignidade, a ingenuidade, a alegria, e, se persistem, o Amor, a mais pura expressão da Vida. e ninguém ama um cadáver.

 

quando os quadrados disseram que já estavam a assumir que iam namorar comigo, lembrei-me da minha jura, que não ia voltar a ter um compromisso com ninguém tão cedo, mas acabei por decidir que por ele abriria uma excepção. ele era diferente, dizia de mim para mim. era o tal homem que levava as mulheres a sério, dizia que não tinha casos de uma noite, certamente não me iria submeter às suas regras sem contrapartidas deliciosas. se era assim que encarava as mulheres merecia ser encarado da mesma forma. e abri um pouco mais o meu coração tão maltratado na última década.

 

quando falaram, na subida para o miradouro de santa luzia, de não quererem repetir um padrão que me tinha magoado, sorri para o céu. pensei, "como é possível que só agora tenha descoberto que me posso interessar por um homem que não alimente a própria dôr, que não se feche em copas para o universo, que não se corroa com vícios mentais e físicos, que esteja disposto a entregar-se?". e acreditei que estava a mudar de padrão. sentia que estava prestes a apaixonar-me por um homem limpo de corpo e de mente, puro de alma e de sorriso, e lindo da cabeça aos pés. lá em cima, depois do primeiro beijo e dos mil e duzentos seguintes, deixei escapar um "todo para miiiiim!" aliviado depois da espera, mas tinha na cabeça o momento presente. respondeu-me com uma pergunta que já incluía a resposta: "e tu, também és só para mim?". a pergunta não parecia referir-se só àquele momento. e, sem pensar, disse-lhe que assim seria. é incrível como abdico das minhas juras de fidelidade a mim mesma quando a lua está crescente.

 

mas não tive tempo para ter dúvidas sobre se seria aquilo que eu queria. de qualquer forma, calculei, já lhe falara de que nunca havia certezas de nada. um namorado é alguém de quem se gosta naquele momento; o próximo é sempre incerto. a diferença é que um namorado é alguém que se leva a sério, um amante é alguém com quem se tem sexo sem compromisso. e nesse banco do jardim do rato, esclareceu que era apenas meu amante. fiquei uns minutos a pensar: "fiz merda. prometi exclusividade a um amante". mas sentia-me tão virada para ele, que abri mão do meu medo, e decidi deixar-me partir a cara se fosse preciso.

 

então chegou a altura em que lhe disse o que já tantas vezes pensara que sentia. estava feliz, e voltava a ser livre, livre de insegurança, livre para me sentir feliz. e foi aí que percebi em que pé estava. eu não tinha mudado de padrão. o meu padrão de não ser querida o suficiente, de não ser levada a sério, de servir de válvula de escape e nada mais, tinha, miraculosamente, transformado um homem que levava as mulheres a sério num homem que levava as mulheres a sério, mas, para mim, abria uma excepção. a excepção que eu abria para ele no sentido diametralmente oposto.

 

e enquanto ia para casa, resolvi ter uma conversa de homem para homem comigo.

eu devia estar maluca. aos 26 anos é que resolvi arranjar um amigo imaginário. passada a campanha eleitoral, e quando já sentia segurança em mim, segurança de que eu era só para ele e de que não me ia fartar dele tão cedo, tendo obtido o que desejava, não precisava de ir mais longe. só precisava de ir até ali - ter o que queria de mim e ter o que queria para ele, e confiar que, por ele, eu mudaria os meus padrões, seria fiel pela primeira vez, seria fiel, como nunca fui... a um amante! mudaria a minha vida para estar 150% disponível para um homem que não o estava para mim... mais uma vez!

a minha vida estava a andar para trás. mais uma vez, via um homem levar a brasa só e unicamente à sua sardinha, enquando a minha jazia crua e deprimida num canto da grelha.

 

e percebi. percebi que estava a fazer castelos no ar, como lhe disse. que não só não estávamos em pé de igualdade, como era suposto que não o estivéssemos de todo, que ambos o soubéssemos, e que nenhum se opusesse à ideia, porque ele queria e porque eu aceitava. e ia submeter-me novamente às regras do jogo de outra pessoa? qual é a parte de "tudo ou nada" que é difícil de entender? demorei todo o mês da aproximação a habituar-me à ideia de uma relação que só podia ser séria, com um homem tão sério. repensei os meus padrões por ele. porque, se queria carinho, se queria palavras que o derretessem, elas só podiam sair da boca de uma pessoa que estivesse ali de alma e coração. nunca de uma amante. mas que sabe ele da distinção entre uma e outra? tinha-me deixado levar pelas promessas de um vendedor. e de promessas tenho eu o quarto forrado.

 

depois de meia hora carrancuda no comboio, precipitei-me para a porta. precisava de ar. e quando as portas se abriram, senti que, pela primeira vez em toda a minha história, era livre.

sorri enquanto sentia a brisa ainda invernal na cara, e pensei, e disse para mim, e disse para ele, e para todos os outros, passados e vindouros:

- não. obrigada mas não, obrigada.

e voltei a sentir aquela euforia de quando era ainda criança e, por algum motivo, me levavam à rua à noite. aquela sede de liberdade, de correr e sentir o cheiro do vento, de dançar à chuva e celebrar a vida por aquilo que é. sem coadjuvantes, sem bengalas, sejam elas drogas ou homens ou os velhos padrões de sempre, que se desvaneceram como pó.

 

não, mas obrigada. porque a tua relutância me libertou como nunca ninguém conseguira fazê-lo.

tu guardas os momentos, eu guardo a lição. das borboletas na barriga, nem sinal. do rosto e do cheiro, nenhum vestígio saudoso. não, não podes ser intenso, não podes entrar na minha casa, ou no meu refúgio, não podes envolver-te mais comigo. porque foste um amante, e os amantes não deixam história. são um, e outro, e outro, sempre o mesmo, com rostos e corpos diferentes, representando apenas aquela parte da vida que é festa, que é juventude, que é à flor da pele e não cava sulcos no coração. e isso não é nada. mas nada é melhor do que um bocadinho. sempre deixa espaço livre!

e sei que no passado precisei sempre de um novo homem para esquecer o anterior... mas desta vez é diferente. não vou precisar, não vou procurar, não vou esperar e não vou, de todo, aceitar. porque não preciso.

 

isto passou-se há cerca de vinte anos, e esta é a minha palavra final: foste mesmo um sonho... foste! 

 

No dicas - dá uma dica
 
#
a história repete-se

ou:

 

o fim da aventura

 

ou:

 

a paixão de uma adolescente esgota-se

 

ou tantos outros clichés que podiam perfeitamente ser aqui aplicados.

 

o momento, que já tardava, da confissão de uma entrega naturalmente inevitável, quando o contexto era perfeito, foi recebido de braços fechados, de cara fechada e com renitência. esperava o sorriso que fizera quando lhe retribuí a pergunta da dedicatória, mas, como alguém profetizara, "palavras são palavras".

 

assim, olhou para baixo de boca aberta, e percebi que procurava uma maneira delicada de pedir que não me entregasse demais. pensou ainda uns segundos, mas a resposta mais apropriada que lhe ocorreu foi lembrar que não estava a pensar no futuro, que não gostava de criar expectativas, que sempre tinha levado as mulheres a sério, e agora queria fazer as coisas de forma diferente. e o mais curioso é que pareceu esperar que me alegrasse com isso. e eu que estava tão confiante no seu QI de 155!

 

fiquei uns segundos a pensar que a nossa cumplicidade e perfeito entendimento tinham sido "claramente" sobrestimados da minha parte. em que é que aquilo que eu tinha dito contemplava o futuro, expectativas ou omplicações de qualquer género? parecia que lhe tinha feito um pedido de casamento...

 

acompanhei-o ao marquês e pensei que ele era realmente o amante perfeito, que se escusava a complicações, que me escusava a complicações, que mantinha as coisas no presente. levou-me até à porta do metro. e enquanto o metro partia apeteceu-me provocá-lo, como se faz aos amantes.

 

mas entretanto o metro partiu. e eu percebi que ele era um amante. não era uma aventura romântica. era e desejava continuar a ser um affair, com muitas delicadezas e nove-horas à mistura, como apraz a um bom cavalheiro. e durante o caminho fui encaixando a ideia. fui encaixando que ele não ficara radiante como eu teria ficado se ele me tivesse dito aquilo. parecera mesmo incomodado, receoso de que eu fosse persegui-lo como talvez esteja habituado a ser.

 

"bem", pensei então, "realmente não faz sentido uma pessoa estar muito bem com a sua amante e ela fazer assim, do nada, uma confissão destas." fazia-me lembrar aquele meu amigo que estava quase quase a vir-se quando a rapariga disse "amo-te", e perdeu imediatamente a tusa. e decidi que confissões destas não voltariam a sair da minha boca, inconvenientes que eram, e totalmente infundamentadas, descontextualizadas, como um arco-íris numa discoteca.

 

a escrota não me atendia. achei o diário mas não tinha trazido caneta. por isso não pude senão passar de um raciocínio a outro e de um sentimento ao seguinte. e ocorreu-me, subitamente:

 

eu não preciso de um amante. e podia precisar! mas, se precisasse, procuraria um olhar selvagem, indomado, um rebelde sem causa, um daqueles homens que se deixam deitar no chão por um abraço em plena rua sem pensar (muito menos dizer) que estão a fazer figuras, que nos deixam desapertar-lhes o fecho das calças, que não nos abraçam a seguir ao sexo, e que nunca, jamais, em tempo algum nos apresentariam aos amigos na noite em que lhes dizemos que estamos anti-sociais. um amante pode não ter alguns dos pontos positivos de um namorado, como as flores, as declarações, as noites de pantufas, filme e pipocas, mas compensa com várias vantagens e uma delas - a principal, dizendo melhor - é que por um amante não precisamos de fazer sacrifícios.

 

não vamos ter com um amante porque ele está em baixo e precisa de nos ver para que o animemos na noite anterior ao dia em que nos vamos levantar cedíssimo, e, por coincidência, uma noite em que estamos mal dispostas.

não somos obrigadas a conhecer e fazer conversa com os amigos do amante.

não temos de ter exclusividade, aliás, esse parece ser o objectivo.

e, certamente, e isto em qualquer língua de qualquer país, não precisamos de dar explicações e satisfações sobre há quanto tempo somos pessoas adequadas aos critérios de selecção decorrentes de crenças, traumas e vivências várias.

 

então...

porque estava a ter o pior de dois mundos? como quando, no trabalho que tenho há meio mês, me pediram para assinar um contrato que me pede que dê oito dias à casa, mas que sublinha que continuo a recibos verdes e tenho de ir pagar a minha própria segurança social.

porque estava a fazer cedências como uma namorada, a preocupar-me como uma namorada, a ter de ser exclusiva como uma namorada, a dar explicações como uma namorada, e depois... a ser uma amante, aparentemente, com várias cláusulas no meu contrato a esclarecer que é proibido pensar no futuro, é proibido criar expectativas, e em caso de rescisão não há aviso, porque essas coisas se sentem?

 

ele não era o amante perfeito, percebi então. ele era o namorado perfeito. é que, tal como ninguém pede um bagaço num restaurante de luxo, também ninguém abre um champagne numa tasca.

 mas enquanto todas estas imagens cada vez mais sujas se iam desenrolando na minha mente, e à medida que monsanto se desenrolava à minha esquerda, percebi que, tal como ele queria poder estar com uma rapariga sem a levar a sério, eu teria querido estar com um homem que me levasse a sério. mas esse homem não era ele. e há muito tempo que eu deixei de achar que enquanto a pessoa certa não chega temos de nos divertir com as erradas. e percebi que, às tantas, também não o queria como namorado. simplesmente já não o queria. porque antes de ele aparecer eu tinha jurado que não abdicaria da minha liberdade tão recentemente conquistada, que desta vez teria mais tempo para mim, aproveitando a ausência de compromisso. nem tão pouco teria aberto todas estas excepções se ele não me tivesse dito que já estava a assumir que ia namorar comigo.

 

e tal como aconteceu com todos os outros, eu avisei.

avisei que era tudo ou nada.

avisei que era tradicional.

e avisei que o amor era como um iogurte, passado o prazo de validade não interessa se esteve no frigorífico.

e, tal como os outros, ele ignorou os meus avisos e pensou que podia ter tudo à maneira dele, com os timmings dele, com direito a todos os seus direitos e todas as minhas obrigações.

 

e de repente passou, e agora, como sempre, eu sou a imatura, eu não soube perceber o envolvimento dele, fui eu que o deixei triste.

mas eu avisei.

No dicas - dá uma dica
 
#

sem saber como nem porquê, dou comigo no exacto ponto em que sonhava estar há talvez uns sete meses...

nunca imaginei...

sim, desta vez vou acabar o que comecei, vou realmente acabar o curso, assegurar os meus vícios e a minha subsistência, manter a casa arrumada, manter a alma arrumada, e, para variar, limpa.

o silêncio chegou, finalmente, desta vez sem serem necessários coadjuvantes artificiais. só chegar a casa e despir a armadura depois de um dia de estudos (há-de acontecer, que diabo) e (quem diria) trabalho, um passeio com o homem de vermelho com o seu sorriso sempre a postos, que aligeira alguns dias e me traz à boca o sabor da juventude... e da simplicidade.

realmente cansei-me de almas envelhecidas, arrastadas a custo pelas ruelas de lisboa... ou ter-me-ei cansado realmente?

vai sempre haver um lugar para a boa e velha decadência dos tempos antigos, para a fuga, para, quanto mais não seja, um ou outro momento de revivalismo de uma independência que me custou muito conquistar e de que não abdico, para ter sempre presente que a vida não é assim tão séria, que há tantas formas de viver e de estar quantas pessoas há na terra (ou no ar, em casos raros, ou, pérola das pérolas, no fogo, como esses olhares que brilham a azul vivo por trás da névoa, e que nunca vou esquecer)... mas já decidi que não é aí que eu pertenço.

melhor ainda, de repente decidi que não pertenço a nada neste mundo, senão à minha lógica, ao meu sentir, e isso, sei agora, nunca vou perder.

nunca vou perder este momento de felicidade plena, em que tudo o que quero se apresenta nos meus dias a meu bel-prazer, em que nada me falta, em que já não espero ansiosamente ser salva por alguém, porque de repente chegou a minha força salvadora, e, espanto absoluto... era eu! 

nunca vou perder estes dias recentemente chegados em que não me levanto a correr, porque não preciso urgentemente de nada, não preciso de nada senão dos meus vinte minutos de café non-stop e cigarros a dar com um pau, música nova para os meus ouvidos novos, como dizia o profeta dos adolescentes, e ouvir os pássaros no meu jardim, e sorrir para a vida, porque afinal, acabo de nascer para um mundo completamente novo. passei o círculo das necessidades - cheguei ao círculo das bênçãos.

 

e "que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas

aves que são os segredos da vida,

o que quer que cantem é melhor do que conhecer

e se os homens não as ouvem estão velhos"

 

e "que o meu coração caminhe pelo faminto

e destemido e sedento e servil

e mesmo que seja domingo que eu me engane,

pois sempre que os homens têm razão não são jovens"

 

porque "nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse

CHAMAR A SI TODO O CÉU COM UM SORRISO"

 

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh.....

finalmente!

No dicas - dá uma dica
 
Moi-même
Ora vamos a...

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