and then, a real first...
(versão testamento)
tem chegado a mim através de inúmeras vozes, escritas, e citações e conselhos e sorrisos, a verdade universal de que somos nós que mantemos os padrões mentais que criam os acontecimentos que se repetem nas nossas vidas. padrões de doença, carência, dependência, infelicidade. como não poder deixar de consumir drogas, ou precisar de um homem para esquecer o antigo, porque não se suporta a própria companhia.
na sua breve passagem pela minha vida, o homem dos quadrados trouxe-me essa verdade sob três faces ( listadas por ordem de importância):
- a primeira, o livro da irmã dele, que me emprestou
- a segunda, o livro que eu quis assim que a irmã dele mo mostrou, e ele me ofereceu para "expandir o meu espírito",
- a terceira, aquilo que me disse sobre ter pensado que seria injusto que eu esperasse por ele, quando já tinha tido de esperar por que o gajo cumprisse o seu voto (o que vale é que os sofrimentos passados raramente mantêm o peso que lhes atribuímos quando se passaram - à distância de um ano, que, vendo bem, não é nada, considerando que o mundo existe há milhões de anos, só consigo achar absurdo que tenha sofrido tanto e chorado as últimas lágrimas que me recordo de chorar por uma formalidade numa relação que se desfez como um castelo de areia à passagem de uma onda... aliás, como todas). disse-me que tinha visto um padrão a repetir-se, e não queria submeter-me a isso.
ora vamos por partes:
em todas as relações que eu tive até hoje, só houve uma constante - submissão. nem sempre factual, muitas vezes mesmo acusada de imaginária pelos protagonistas, mas que interessa a quem sofre se o seu sofrimento é real ou imaginário? não serão todos os sofrimentos, em última análise, imaginários?
submissão à indiferença, à traição, às diferenças, ao orgulho, à mentira, ao ciúme, às afirmações do ego, e a todas as incontáveis mesquinhices e lamúrias e manipulações e penas e angústias de que os homens são (sempre surpreendentemente) capazes, quando estão a ver que a bem não chegam lá.
são muitos os abismos no abismo das relações amorosas, na sua maioria intransponíveis, e, vendo bem, perfeitamente desnecessários. pelo menos até nova informação.
o mais acarinhado de todos os dons masculinos que até hoje me foram apresentados é, sem dúvida, a espantosa, quase alquímica capacidade que os homens têm de pegar numa mulher que consideram bonita, inteligente, independente, alegre, optimista, selvagem, e, aos poucos, sem que ela se dê conta, refreá-la, manipulá-la, entristecê-la, domesticá-la, amesquinhá-la, diminuí-la e transformá-la, pouco a pouco, lamúria a lamúria, birrinha a birrinha, numa esposa, um animal doméstico, uma coisinha murcha, esmorecida, sem brilho, sem prazer, sem espontaneidade, sem... vida! e, interiormente, esfregam as mãos quando ela deixa de sorrir pela rua, de falar com toda a gente, de usar mini-saia, quando está presa, sufocada, quando deixou de ser aquilo que os apaixonou e que poderia apaixonar outros... e então há duas hipóteses: ou ela escapa à clausura que permitiu e criou para si mesma, ou ele procura outra, com todos os atributos que ela deixou de ter para percorrer o caminho que os separava.
como este artifício da culpabilização há toda uma miríade de outros, destinados, sempre, sempre, a manter o homem na posição de poder que ele julga que ela tem à força e se abate sobre a fraqueza dele. a indiferença, a reprovação, o insulto, a desconfiança, o paternalismo, o paleio de vendedor, a mentira, a bajulação cínica, truques desonestos que matam a dignidade, a ingenuidade, a alegria, e, se persistem, o Amor, a mais pura expressão da Vida. e ninguém ama um cadáver.
quando os quadrados disseram que já estavam a assumir que iam namorar comigo, lembrei-me da minha jura, que não ia voltar a ter um compromisso com ninguém tão cedo, mas acabei por decidir que por ele abriria uma excepção. ele era diferente, dizia de mim para mim. era o tal homem que levava as mulheres a sério, dizia que não tinha casos de uma noite, certamente não me iria submeter às suas regras sem contrapartidas deliciosas. se era assim que encarava as mulheres merecia ser encarado da mesma forma. e abri um pouco mais o meu coração tão maltratado na última década.
quando falaram, na subida para o miradouro de santa luzia, de não quererem repetir um padrão que me tinha magoado, sorri para o céu. pensei, "como é possível que só agora tenha descoberto que me posso interessar por um homem que não alimente a própria dôr, que não se feche em copas para o universo, que não se corroa com vícios mentais e físicos, que esteja disposto a entregar-se?". e acreditei que estava a mudar de padrão. sentia que estava prestes a apaixonar-me por um homem limpo de corpo e de mente, puro de alma e de sorriso, e lindo da cabeça aos pés. lá em cima, depois do primeiro beijo e dos mil e duzentos seguintes, deixei escapar um "todo para miiiiim!" aliviado depois da espera, mas tinha na cabeça o momento presente. respondeu-me com uma pergunta que já incluía a resposta: "e tu, também és só para mim?". a pergunta não parecia referir-se só àquele momento. e, sem pensar, disse-lhe que assim seria. é incrível como abdico das minhas juras de fidelidade a mim mesma quando a lua está crescente.
mas não tive tempo para ter dúvidas sobre se seria aquilo que eu queria. de qualquer forma, calculei, já lhe falara de que nunca havia certezas de nada. um namorado é alguém de quem se gosta naquele momento; o próximo é sempre incerto. a diferença é que um namorado é alguém que se leva a sério, um amante é alguém com quem se tem sexo sem compromisso. e nesse banco do jardim do rato, esclareceu que era apenas meu amante. fiquei uns minutos a pensar: "fiz merda. prometi exclusividade a um amante". mas sentia-me tão virada para ele, que abri mão do meu medo, e decidi deixar-me partir a cara se fosse preciso.
então chegou a altura em que lhe disse o que já tantas vezes pensara que sentia. estava feliz, e voltava a ser livre, livre de insegurança, livre para me sentir feliz. e foi aí que percebi em que pé estava. eu não tinha mudado de padrão. o meu padrão de não ser querida o suficiente, de não ser levada a sério, de servir de válvula de escape e nada mais, tinha, miraculosamente, transformado um homem que levava as mulheres a sério num homem que levava as mulheres a sério, mas, para mim, abria uma excepção. a excepção que eu abria para ele no sentido diametralmente oposto.
e enquanto ia para casa, resolvi ter uma conversa de homem para homem comigo.
eu devia estar maluca. aos 26 anos é que resolvi arranjar um amigo imaginário. passada a campanha eleitoral, e quando já sentia segurança em mim, segurança de que eu era só para ele e de que não me ia fartar dele tão cedo, tendo obtido o que desejava, não precisava de ir mais longe. só precisava de ir até ali - ter o que queria de mim e ter o que queria para ele, e confiar que, por ele, eu mudaria os meus padrões, seria fiel pela primeira vez, seria fiel, como nunca fui... a um amante! mudaria a minha vida para estar 150% disponível para um homem que não o estava para mim... mais uma vez!
a minha vida estava a andar para trás. mais uma vez, via um homem levar a brasa só e unicamente à sua sardinha, enquando a minha jazia crua e deprimida num canto da grelha.
e percebi. percebi que estava a fazer castelos no ar, como lhe disse. que não só não estávamos em pé de igualdade, como era suposto que não o estivéssemos de todo, que ambos o soubéssemos, e que nenhum se opusesse à ideia, porque ele queria e porque eu aceitava. e ia submeter-me novamente às regras do jogo de outra pessoa? qual é a parte de "tudo ou nada" que é difícil de entender? demorei todo o mês da aproximação a habituar-me à ideia de uma relação que só podia ser séria, com um homem tão sério. repensei os meus padrões por ele. porque, se queria carinho, se queria palavras que o derretessem, elas só podiam sair da boca de uma pessoa que estivesse ali de alma e coração. nunca de uma amante. mas que sabe ele da distinção entre uma e outra? tinha-me deixado levar pelas promessas de um vendedor. e de promessas tenho eu o quarto forrado.
depois de meia hora carrancuda no comboio, precipitei-me para a porta. precisava de ar. e quando as portas se abriram, senti que, pela primeira vez em toda a minha história, era livre.
sorri enquanto sentia a brisa ainda invernal na cara, e pensei, e disse para mim, e disse para ele, e para todos os outros, passados e vindouros:
- não. obrigada mas não, obrigada.
e voltei a sentir aquela euforia de quando era ainda criança e, por algum motivo, me levavam à rua à noite. aquela sede de liberdade, de correr e sentir o cheiro do vento, de dançar à chuva e celebrar a vida por aquilo que é. sem coadjuvantes, sem bengalas, sejam elas drogas ou homens ou os velhos padrões de sempre, que se desvaneceram como pó.
não, mas obrigada. porque a tua relutância me libertou como nunca ninguém conseguira fazê-lo.
tu guardas os momentos, eu guardo a lição. das borboletas na barriga, nem sinal. do rosto e do cheiro, nenhum vestígio saudoso. não, não podes ser intenso, não podes entrar na minha casa, ou no meu refúgio, não podes envolver-te mais comigo. porque foste um amante, e os amantes não deixam história. são um, e outro, e outro, sempre o mesmo, com rostos e corpos diferentes, representando apenas aquela parte da vida que é festa, que é juventude, que é à flor da pele e não cava sulcos no coração. e isso não é nada. mas nada é melhor do que um bocadinho. sempre deixa espaço livre!
e sei que no passado precisei sempre de um novo homem para esquecer o anterior... mas desta vez é diferente. não vou precisar, não vou procurar, não vou esperar e não vou, de todo, aceitar. porque não preciso.
isto passou-se há cerca de vinte anos, e esta é a minha palavra final: foste mesmo um sonho... foste!